terça-feira, 14 de maio de 2013

lugar nenhum


cia viçeras apresenta
"lugar nenhum"
um trabalho de criação coletiva.

direção e texto: diego rodrigues
elenco: tatiana bevilacqua
fotografia e câmera: diego rodrigues e marcia regina
trilha original: teka simon
edição: rafael toscano
participação especial: camila lua oliveira

sexta-feira, 10 de maio de 2013


tinha uma coisa pra dizer
um sentimento de falta 
uma palavra
que expressaria aquele negócio aquela coisa
estranha que não se deixa falar
que me escapole por entressílabas
sem eu conseguir achar
o nome daquele daquela sensação de um jeito
de peito-boca
um lance coração-mão
sei lá
de repente é que a palavra
tadinha nunca foi sua especialidade dar conta
de ser e acaba tentando dizer
sobre o que foi apesar
da distância do corpo que ficou
e tende a ficar
por aqui mesmo

domingo, 5 de maio de 2013


desci do ônibus querendo me perder no eixão. e teve um momento em que a razão perdeu a vez para a sensação. dai do nada ao atravessar de vez o eixo e me perder nas luzes dos carros, apareceu um homem no meio-fio.
ele apenas tirava fotos dos carros no eixão, enquanto eu queria atravessar aquele abismo. eu fiquei observando o gesto dele, o cabelo dele, até ele terminar o que precisava fazer e descer para a passarela.
eu não atravesso passarelas à noite, mas eu não resisti e me cedi ao desejo de ir atrás daquele homem desconhecido.  quanta vida tinha aquela passarela, era isso o que ele queria me mostrar. 

sábado, 4 de maio de 2013

eu me deito no meio da rua por horas
pista pra carros
por horas eu meu deito e fico deitada
e é daqui que mando essa mensagem
pra dentro dos dedos de que
te mandam essa mensagem
em pleno sábado à noite
no meio da rua
vc não
aqui sim
no meio da rua eu me deito e fico deitada por horas
lá vem 1 carro!

sábado, 20 de abril de 2013


aqui, bem aqui a seca se anuncia debaixo da sombra
o sol aquece a cidade por fora
por dentro aquele frio que envolve os prédios as casas
as folhas balançam, o vento se faz presente.  

terça-feira, 19 de março de 2013

sexta-feira, 15 de março de 2013


eu fico espiando da janela a escola infantil em frente a minha casa. fico observando que as crianças pequenas do meu prédio estudam nessa escola. tem dias que eles fazem tanto barulho dos mais variados volumes. eu gosto da sonoplastia que eles produzem. parece que a cidade se preenche com suas vozes, gritos, berros, brincadeiras, conversas... fiquei também pensando que quando eu tiver um filho ou uma filha, quero ter uma escola perto da minha casa. aqui os pais saem de casa uns dez ou cinco minutos antes de seus filhos entrarem no colégio. eu fico observando a lentidão deles ao atravessarem a rua, um pulinho eles já estão lá dentro. fico pensando: será que os pais dessas crianças ficam da janela observando seus filhos? eu reconheceria o grito do meu filho. eu fico pensando se meu filho tivesse dor de barriga seria um segundo de casa até a porta do colégio, e pronto eu estaria com ele. mas fico pensando que a distância também é boa pra um desenvolvimento para a vida.  agora eles param de gritar, só ouço o barulho dos carros. 

segunda-feira, 11 de março de 2013


isto aqui tem nome de mundo
mas poderia ser resto
resto de todos, eu de todos
isto aqui é um deposito dos restos
tem endereço, cep, número de rua, tem pele morta de muita gente
ás vezes é só resto mesmo
ás vezes vem descuido também
a gente se alimenta de descuido
resto é descuido
é louça suja na pia
é mosca sobrevoando
varejando o mundo
isto aqui é uma panela de pressão
vem tudo de tanto pra cá
a gente transforma, a gente come
a gente incinera...
um dia isto aqui explode feito um cometa
ele tá aqui dentro
ele tá queimando
ele quer me controlar
mas estou no controle...
estou no controle, estou no controle
esta mira sou.

para Estamira. 

domingo, 10 de março de 2013

ascende que ele apaga



é que eu sou o ataque e aquele que nem viu o embate. 

quero. aquele lugar perto da virilha, eu não alugo, alugo porque não, porque não é meu. 

porque é a vida de quem quis tudo aquilo que não podia ser, aquilo que não que sim, 

que pede desculpa, que perdoa, que guarda a mágoa pro último texto, 

aquele antes do suspiro final, que não pode ascender o último cigarro, 

porque não é meu, e ascende e eu dou trago, 

aquele cigarro que não pode falar, 

deixa a alma pra gente defumar, 

peço desculpa, 

foi mal porque eu não seguro a onda toda, 

só um pedaço, aquele pedaço de céu em que bate o grafiti, 

aquele amor que vocês levam pro banheiro, 

pro gesto de amor, pro defumador 

que eu não queimo, pro resto de cerveja quente 

que a gente bebe e desafia pra gente de bem não reclamar de mim. 

parabéns pra mim.

501.7

ônibus pra sobradinho. vazio. cadeiras pra sentar, barulho do motor suportável, cobrador simpático. na plataforma superior da rodoviária, ele encheu. chega a ficar parado alguns minutos enquanto as pessoas sobem. praticamente todo mundo de sobradinho. um ônibus inteiro com gente de outra cidade. é um pedaço de sobradinho que trafega pelo eixinho. uma ilha móvel com seu estandarte na frente em letras luminosas: SOBRADINHO. na minha frente um casal de namorados, por sorte, conseguiu dois lugares vazios. sentam e se beijam. longamente. acho que naquele momento o resto do ônibus deixou de existir. "a senhora quer sentar? eu desço logo ali no começo da asa norte." ela agradeceu e aceitou. não esboçou um sorriso. o rosto cansado. o corpo também. além do próprio peso, carregava uma sacola grande com alças no ombro e duas sacolas de supermercado. a moça sentada do lado pareceu agradecer no lugar da outra. deu um largo sorriso. calor. "papai sabia que eu te amo?" "sei filhão. papai também te ama." era a conversa nos bancos de trás. além do amor compartilhado, falaram também sobre yoda, guerra nas estrelas e espadas lasers. o pai acompanhava bem o assunto. muitas outra coisas aconteceram. coisas que eu não tive a sorte de ouvir. coisas que as pessoas vivem todos os dias compartilhando a cidade. dias mais poéticos, outros mais sórdidos, mas todos recheados de gente. que bom. sozinho dentro do carro ouvia só o meu silêncio.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013


um rabisco
eu de encontro com a cidade
outro rabisco e já sou cidade, concreto
concreto seria pertencer a Brasília
mas seria ela eu?
uma garatuja, um reflexo de mim habitando minha cidade
minha cartografia, minha casa
meus case 30 anos de cidade
meu corpo marcado por ela
cheio dela estou, até seus contornos vazios
seus espaços vazios 
um puro deleite, ela me dança
me distância, me envolve
me contradiz-es
me tudo, me instante, me dança, me grita, me sufoca
me angústia, me alegra, me toca
me projeta, me transpassa
me é cidade
me é corpo. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


Foi numa cabeça vazia de Outubro que Janeiro descobriu um tumor no pâncreas. O jardineiro disse: “é benigno, mas faz mal”. Três dias passaram voando e pousaram no sensual peitoril de uma janela, que, muito simpática como era, se fechou logo num estrondo que trincou os brindes de ano novo no andar abaixo. 
Com uma concha marinha, colocou três medidas de rio nos pensamentos, o suficiente para avaliar se o crânio estaria meio cheio ou meio vazio. Se estivesse meio cheio, seria benigno como a Teresa na Madre; se estivesse meio vazio, seria benigno como a Teresa no Calcutá.
Escoou os pancreamentos em uma chuva de Fevereiro, que caiu sobre um bloco triste de carnaval, cheio de serpentinas peçonhentas e mendicantes de golinhos gelados da Antártica.
Ah! Se ao menos não tivesse anoitecido ontem! Ou se tivéssemos pulado das 18h25min direto pros primeiros versos, pros primeiros sentidos, pro pelotão sentindo, pro peladão certinho, pro meu medinho, pra mim aconchegado no seu mindinho... se tivéssemos pulado da Torre de TV!
E essa dor no meu athos bulcão... não sei que quadrilátero é esse, só sei que é terminal, de onde Sobradinho está a apenas R$ 3,00 de distância. É looooooooooonge! Longe como os fartos peitoris da janela, amamentando de vento uma parede imensa. E se a janela fosse um mês, seria Abril. Não tenho certeza.
Vou ficar uns três metros afastado pra poder envelhecer. Enquanto isso, assistir ao jardineiro trabalhar e esperar aquela garoa aguar seus diagnósticos. É benigno deixar o espaço passar assim, cheio de graça a caminho do centro dos olhos da anatomia de quase qualquer um.
É tudo uma questão de perspectiva: se está ótimo, é otimismo; se está péssimo, é melhor cantar uma música pra espantar os mares e ignorar as marés. Afinal de contas ninguém fica oco, o que acontece é gente inspirando tão fundo que se enche de ar e só. O resto de nós fica aqui respirando com dificuldade esse tanto de órgãos, ossos, sangue e ideias despejados... As pessoas não-ocas vão nos matar asfixiados! Estou cuidando pra não inspirar muito fundo... EITA! Olha que passaram voando mais dois dias! É hora de ir chegando em qualquer lugar à frente.
Mas eu estou esperando a carona: semana que vem é carnaval. 
As más notícias são que afinal Janeiro morreu. O maligno jardineiro riu.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

da careca do vovô surge um monumento

era uma nuvem negra pairando sobre uma cabeça. uma careca. não, era pedra. era um morro branco. era o tormento do ovo natimorto, do seio que dá leite, da barriga da mãe. era o apocalipse da cidade sonho. era o tormento do espírito feito de nuvens e cimento ao contrário, ou talvez apenas a chuva chegando e cobrindo niemeyer.