sexta-feira, 15 de março de 2013


eu fico espiando da janela a escola infantil em frente a minha casa. fico observando que as crianças pequenas do meu prédio estudam nessa escola. tem dias que eles fazem tanto barulho dos mais variados volumes. eu gosto da sonoplastia que eles produzem. parece que a cidade se preenche com suas vozes, gritos, berros, brincadeiras, conversas... fiquei também pensando que quando eu tiver um filho ou uma filha, quero ter uma escola perto da minha casa. aqui os pais saem de casa uns dez ou cinco minutos antes de seus filhos entrarem no colégio. eu fico observando a lentidão deles ao atravessarem a rua, um pulinho eles já estão lá dentro. fico pensando: será que os pais dessas crianças ficam da janela observando seus filhos? eu reconheceria o grito do meu filho. eu fico pensando se meu filho tivesse dor de barriga seria um segundo de casa até a porta do colégio, e pronto eu estaria com ele. mas fico pensando que a distância também é boa pra um desenvolvimento para a vida.  agora eles param de gritar, só ouço o barulho dos carros. 

segunda-feira, 11 de março de 2013


isto aqui tem nome de mundo
mas poderia ser resto
resto de todos, eu de todos
isto aqui é um deposito dos restos
tem endereço, cep, número de rua, tem pele morta de muita gente
ás vezes é só resto mesmo
ás vezes vem descuido também
a gente se alimenta de descuido
resto é descuido
é louça suja na pia
é mosca sobrevoando
varejando o mundo
isto aqui é uma panela de pressão
vem tudo de tanto pra cá
a gente transforma, a gente come
a gente incinera...
um dia isto aqui explode feito um cometa
ele tá aqui dentro
ele tá queimando
ele quer me controlar
mas estou no controle...
estou no controle, estou no controle
esta mira sou.

para Estamira. 

domingo, 10 de março de 2013

ascende que ele apaga



é que eu sou o ataque e aquele que nem viu o embate. 

quero. aquele lugar perto da virilha, eu não alugo, alugo porque não, porque não é meu. 

porque é a vida de quem quis tudo aquilo que não podia ser, aquilo que não que sim, 

que pede desculpa, que perdoa, que guarda a mágoa pro último texto, 

aquele antes do suspiro final, que não pode ascender o último cigarro, 

porque não é meu, e ascende e eu dou trago, 

aquele cigarro que não pode falar, 

deixa a alma pra gente defumar, 

peço desculpa, 

foi mal porque eu não seguro a onda toda, 

só um pedaço, aquele pedaço de céu em que bate o grafiti, 

aquele amor que vocês levam pro banheiro, 

pro gesto de amor, pro defumador 

que eu não queimo, pro resto de cerveja quente 

que a gente bebe e desafia pra gente de bem não reclamar de mim. 

parabéns pra mim.

501.7

ônibus pra sobradinho. vazio. cadeiras pra sentar, barulho do motor suportável, cobrador simpático. na plataforma superior da rodoviária, ele encheu. chega a ficar parado alguns minutos enquanto as pessoas sobem. praticamente todo mundo de sobradinho. um ônibus inteiro com gente de outra cidade. é um pedaço de sobradinho que trafega pelo eixinho. uma ilha móvel com seu estandarte na frente em letras luminosas: SOBRADINHO. na minha frente um casal de namorados, por sorte, conseguiu dois lugares vazios. sentam e se beijam. longamente. acho que naquele momento o resto do ônibus deixou de existir. "a senhora quer sentar? eu desço logo ali no começo da asa norte." ela agradeceu e aceitou. não esboçou um sorriso. o rosto cansado. o corpo também. além do próprio peso, carregava uma sacola grande com alças no ombro e duas sacolas de supermercado. a moça sentada do lado pareceu agradecer no lugar da outra. deu um largo sorriso. calor. "papai sabia que eu te amo?" "sei filhão. papai também te ama." era a conversa nos bancos de trás. além do amor compartilhado, falaram também sobre yoda, guerra nas estrelas e espadas lasers. o pai acompanhava bem o assunto. muitas outra coisas aconteceram. coisas que eu não tive a sorte de ouvir. coisas que as pessoas vivem todos os dias compartilhando a cidade. dias mais poéticos, outros mais sórdidos, mas todos recheados de gente. que bom. sozinho dentro do carro ouvia só o meu silêncio.